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Ajuda, Educação, Opinião, Pais e filhos, Relacionamentos, Sociedade

Pequenos tiranos


tiranoTem me causado espanto o que escuto de vez em quando por aí…como por exemplo estes três casos recentes.

“Nossa, que ovo de páscoa mais caro…Ah, mas a minha filha quer tanto este…E sabe como é, não dá pra falar não pra filho”

“Ninguém fala para os meus filhos que eles estão errados. Só eu e minha esposa fazemos isto. E quando nós achamos que eles precisam ser corrigidos”

“Foi difícil decidir se levaríamos nosso filho de 6 anos ao velório, tão difícil que achamos por bem discutir o assunto com ele, afinal ele é muito adulto para a idade”

Soma-se a isto diversas palestras e artigos que tenho lido contando experiências e análises feitas com diversas famílias ao redor do mundo onde os especialistas (que não é o meu caso) chegaram a conclusão que, cada vez mais quem manda nas relações familiares são os filhos.

Em muitos casos, são eles que decidem o que vestem, o que assistem, o que comem e quando o fazem.

As razões para o porque desta situação bizarra são as mais variadas.

– As novas gerações são mais conectadas com que as antigas e demandam mais liberdade

– Em muitos casos, pai e mãe trabalham fora de casa e criam uma certa insegurança sobre si mesmos e sua capacidade de serem bons pais. E acabam fazendo tudo que a criança quer, como uma forma de compensar

– Muitos pais trocaram a prática do “temos que explicar”, pela “não podemos dizer não” e confundem autoridade com autoritarismo.

– A propaganda atual, tem como um de seus “alvos” principais, a criança. As propagandas são endereçadas a elas, e oferecem a ela um poder que antigamente era menor, pois era compartilhado com os pais. O poder da escolha.

– As crianças tem cada vez menos tempo para serem crianças, pois são inseridas em um mundo de adultos muito cedo. Seja através da mídia, de cursos precoces demais para elas ou por imposição dos pais que temem que seu filho fique para trás em um mercado de trabalho que ainda está muito distante.

Mas lendo e ouvindo sobre este assunto, eu me pergunto:

Que tipos de adultos serão estas crianças e jovens sem limites? Que desconhecem a frustração, os limites, a figura de autoridade. Que não escutam “não”. Que não falam “por favor”. Que tem o poder de decidir o que vestem, o que comem, o que assistem, o que compram? Que são alçadas a um mundo adulto sem terem passado pela infância.

A resposta para esta pergunta, talvez esteja em um conto que li recentemente chamado “O principezinho tirano” (autor desconhecido) que reproduzo abaixo:

Num reino longínquo, uma rainha desesperava-se por não ter filhos.
– Temos de ter um! Temos de ter um!, gemia o rei. Para quem ficará este soberbo reino que me deixou o meu pai, que o recebeu do seu pai, e assim sucessivamente, desde a criação do primeiro pai sobre a Terra? A quem entregarei a minha coroa quando os meus ossos se tornarem velhos e quebradiços, quando estiver cheio de cabelos brancos e tolhido de reumatismo?
– Que quadro tão terrível da velhice! Mas não deixa de ter razão: precisamos ter uma criança.
A rainha consultou todos os manuais e os médicos mais poderosos e mais sábios. Por fim, graças aos tratamentos, finalmente engravidou.
– Cuidado, este principezinho será seu tesouro, mas não lhe deem mimo demais. Não tenham pressa em fazer dele um pequeno rei, preveniu o médico, assim que o bebê nasceu.
Mas mal ele virou as costas, a rainha pegou logo o pequeno príncipe e começou a enchê-lo de mimos.
– Tu és o meu reizinho, o meu único rei, e os teus desejos são ordens.
Os pais meteram o menino numa redoma infinitamente preciosa e, todas as manhãs, uma criada diplomada levava-lhe mamadeiras de cristal com leite da melhor qualidade e mel de abelhas raras. Dormia num colchão de pétalas de rosa colhidas na Abissínia exatamente às 5 horas da manhã -– quando estavam mais frescas -– e em lençóis bordados a ouro. Para servir o menino, uma dúzia de criadas corriam de um lado para o outro durante o dia e, à noite, dormiam a seus pés. Estava protegido de tudo: da mais leve brisa, do menor sopro… Para o aquecer, os pais mandaram construir um sol artificial, que não queimava a pele, mas fornecia vitamina D. Foi assim que o garotinho cresceu, tranquilamente, em silêncio. Seus desejos eram ordens, sempre atendidas prontamente.
No dia em que completou 7 anos, pareceu conveniente aos pais tirar a criança adorada da sua redoma de vidro.
– Meu pequerruchinho, agora já és grande!, disse a mãe, aproximando-se para lhe fazer um carinho.
– Não sou pequerruchinho coisa nenhuma, disse o príncipe com desdém. E se quer me beijar, autorizo que me beije os pés. É o quanto basta.
Depois, dirigiu-se ao pai:
– Ei, velhote, passa para cá a sua coroa!
O rei entregou-lhe a coroa sem dizer uma palavra, porque nunca havia dito “não” ao principezinho, nem quando ele tinha 1 dia, nem quando ele tinha 3 meses. Como proibi-lo então de alguma coisa aos 7 anos? E foi assim que o principezinho se transformou em rei. Um rei tirano de 7 anos e alguns dias. Mandou cortar todas as árvores, porque um dia lhe caiu uma ameixa na cabeça; ordenou que todos os pássaros fossem estrangulados, um a um, porque cantavam de manhã muito cedo e isso atrapalhava seu sono; determinou que sua mãe fosse presa no 749o andar da mais alta das suas torres, porque ela tinha se atrevido a mandá-lo fazer os seus deveres reais. É o que por vezes acontece quando se é criado numa redoma.
O pior é que, apesar dos seus caprichos, ele tinha sempre um rosto infeliz e gritava:
– Sinto-me sozinho! Estou triste! Ninguém gosta de mim!

E o leitor, chegou a alguma conclusão sobre quem será esta criança quando adulta?

Pense nisto

Boa Tarde

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About Alexandre Cezar

A 39 years old Brazilian guy, married and happy. Looking to share ideas, discuss and improve them for who knows make this world a better one.

Discussion

2 thoughts on “Pequenos tiranos

  1. Concordo. Hoje a gente vê cada coisa acontecendo e raramente paramos pra pensar no que levou as pessoas agirem de tal forma. Se for procurar a fundo, nota-se que muito tem a ver com a educação que foi dada, com os traumas na infância, e etc. Os pais estão criando possíveis monstros no futuro e nem se deram conta.. Textos como esse deviam ser melhor apreciados, se fosse algo futil muitos já teriam vindo para discutir…

    Posted by Mayra | April 2, 2013, 12:12 pm
    • Olá Mayra,

      Ao meu ver realmente os jovens de hoje são um reflexo da educação que receberam na maioria dos casos.

      O que me assusta mais ainda é o tipo de filhos que estes jovens irão criar…

      Obrigado pelo comentário

      Posted by Alexandre Cezar | April 2, 2013, 8:02 pm

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